
No desporto há processos que começam no tribunal, mas se decidem também fora dele, como na comunicação social ou na opinião pública. Isto é particularmente evidente quando o visado é um atleta com projeção mediática, já que a associação do seu nome a um processo pode afetar não apenas a sua defesa, como também a carreira, o valor de mercado e a relação com clubes, patrocinadores e adeptos. São muitos os que acompanham casos mediáticos no mundo do desporto, uns por curiosidade, outros por saberem que, para lá da notícia, há consequências jurídicas, desportivas, económicas e reputacionais.
Quando um processo envolve um atleta com projeção mediática, o seu impacto raramente se limita ao tribunal, tornando-se a sua gestão mais exigente à medida que o caso passa a ser acompanhado pela comunicação social. Nesses casos, o processo deixa de ser discutido apenas em tribunal e passa a ser interpretado e julgado no espaço mediático, onde a perceção pública pode ter um peso quase tão relevante como a própria decisão final.
Esta realidade surge, por exemplo, em processos de natureza criminal, como os relativos à condução sob o efeito do álcool, violência doméstica ou crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual. Nestes casos, tratando-se de atletas com visibilidade pública, muito antes de existir uma decisão judicial, a simples associação do nome a uma investigação pode afetar o seu valor de mercado, afastar potenciais clubes interessados, condicionar negociações em curso e até levar o clube atual a ponderar a transferência do atleta.
O Campeonato do Mundo FIFA 2026 ilustra bem esta realidade, com vários jogadores a serem notícia não pelo desempenho em campo, mas pelos processos em que estão envolvidos. É o caso de um jogador de uma seleção africana, que está a ser investigado por suspeitas de violação, o que veio a público durante a competição, tornando-se tema incontornável na cobertura mediática da respetiva seleção. Também outro jogador, igualmente de uma seleção africana, viu-lhe recusada a entrada num dos países anfitriões, por força das acusações que enfrenta noutro país, ficando impedido de disputar o jogo inaugural. Já um jogador de uma seleção europeia foi impedido de viajar com a sua equipa após a sua autorização de entrada nos Estados Unidos da América ter ficado pendente, na sequência de uma condenação pelo crime de ameaça, tendo-se juntado à equipa apenas posteriormente. Em todos estes casos, os processos deixaram de ser apenas uma questão jurídica e passaram a ter consequências imediatas na esfera desportiva.
É por isso que a estratégia de defesa não pode ignorar a dimensão pública do processo, nem o momento desportivo em que este ocorre. O advogado deve antecipar o impacto que cada desenvolvimento pode ter fora do tribunal. O que se comunica, quando e como, pode influenciar a perceção pública, o percurso do atleta na competição e até o desenvolvimento da sua carreira. Afinal, uma declaração precipitada pode fragilizar uma defesa, mas um silêncio descontextualizado também pode ser interpretado de forma desfavorável.
Não se trata de transformar o advogado num porta-voz mediático. Trata-se de reconhecer que a gestão do processo deve articular a posição jurídica com a preservação da imagem e estabilidade profissional do atleta, o que pode passar por conter a exposição mediática até momentos menos sensíveis, como o fecho do mercado de transferências ou o termo de competições internacionais.
Em suma, o trabalho do advogado na defesa de um atleta com visibilidade pública não termina à porta do tribunal. O espaço público é igualmente relevante e é aqui que a reputação se constrói e se destrói com uma rapidez que o processo não consegue acompanhar. É que os media não ficam no banco, entram em campo, muitas vezes, desde o primeiro minuto e ignorar esta dimensão é advogar com uma mão atada atrás das costas.
Por Ricardo Cardoso e Soraia Varela Almeida, Área de Prática – Desporto, Moda e Entretenimento


